Editorial: Clinical Decision Support
Quando entramos em qualquer cidade, seja ela Santiago de Compostela ou a invicta cidade do Porto, por exemplo, é bem evidente que os grandes hospitais do século XX são edifícios que se destacam à vista.
Tal como na idade média, os grandes castelos transmitiam uma sensação de segurança às populações em seu redor, igualmente a construção de grandes hospitais urbanos, projecta o mesmo sentimento de protecção e amparo. Por isso ainda hoje, encerrar um hospital tem elevados custos políticos.
Mas porque têm que ser encerrados alguns hospitais? Porque não se coadunam melhor os gastos públicos em Saúde face às necessidades da população? Pois a razão é simples: hoje não se sabe com rigor quais são essas necessidades e onde se pode realmente gastar melhor o dinheiro que inevitavelmente tem que ser gasto em saúde. Não há fórmulas mágicas, mas a palavra "gestão em saúde" deverá ser objecto de uma profunda reflexão. Como refere abaixo o Dr Luis Cunha Ribeiro, nosso entrevistado este mês, "A área da saúde tem idiossincrasias muito próprias, que levam a que a capacidade de gerir em geral não seja directamente transferível para a gestão da saúde"
Justamente aqui, podemos estabelecer um paralelo com o sector da aviação. Hoje os comandantes de um Airbus, não são apenas pilotos eles são igualmente "gestores de voo" que devem tomar as melhores decisões relativamente a múltiplos critérios: segurança, rotas, tráfico aéreo, meteorologia, gastos de combustível, conforto dos passageiros, etc. Da mesma forma os profissionais de saúde e médicos em particular, podem ser "gestores clínicos", se estiverem dotados de sistemas de apoio à decisão que lhes permitam tomar as decisões mais acertadas, nos múltiplos critérios clínicos e operacionais. Não se trata aqui de comparar custos, mas sabemos que os orçamentos de alguns hospitais equivalem a ter uma frota de Airbus em vôo permanente…
Se os grandes hospitais urbanos no presente devem projectar uma sensação de conforto às populações, esta devería ser a de estarem a ser usados os mais avançados equipamentos médicos, mas também os mais avançados sistemas de informação para a gestão clínica, que lhes permitam desenvolver as melhores práticas ao nível mundial no tratamento de cada paciente.
Hoje, um hospital do futuro, será aquele que melhor conseguir adaptar os sistemas de gestão e integrar os dados da gestão clínica. Fazendo isso poderá transformar-se igualmente em centro de competência em gestão de saúde, tal como o Cardiff & Vale NHS Trust. Este hospital conseguiu obter ganhos liquidos de 1,8 Milhões de Euros de acordo com um estudo da IDC, com um retorno de investimento de 44% em 5 anos, ao implementar uma sistema integrado de gestão financeira. Tal como as auto-estradas ou a electricidade de um país, também uma infrastrutura de tecnologias de informação deve gerar benefícios tangíveis pelas aplicações que suporta, afirma Jean-François Penciolelli, Director da Divisão de Saúde da Oracle EMEA, ele próprio um ex-gestor dos Hospitais de Paris.
Mas a antevisão de um hospital do futuro (que pode existir no presente) não fica por aqui. Podemos receber ensinamentos de empresas como a Oracle, cujos fortes investimentos em sistemas de informação para a Saúde lhe grangearam a escolha como parceiro estratégico do NHS inglês, para a criação de uma plataforma de serviços comuns explorada conjuntamente pelas duas entidades, numa parceria público-privada que já valeu ao NHS a acreditação eGif (e-Government Interoperability Framework).
Actualmente, o HTB (ver diagrama na imagem), é a última novidade da Oracle Healthcare. HTB é o acrónimo de Healthcare Transaction Base é uma tecnologia que adopta as normas e os standards internacionais e que disponibiliza uma única fonte para toda a informacão administrativa, clínica e financeira relacionada com o paciente. Além de suportar a integração das várias aplicações relacionadas com a saúde já existentes num hospital.
Isto permite, entre outras coisas, proporcionar uma única visão sobre o paciente e melhorar o processo de decisão em gestão. Ou seja, tecnologias como o HTB oferecem aos clínicos de um hospital o mesmo sistema de apoio à decisão que um piloto tem ao seu dispôr quando "gere" um avião. Nas mãos de ambos residem muitas vidas humanas e, no caso dos médicos, a chave para a sustentabilidade económica do nosso querido Serviço Nacional de Saúde.
Entrevista Dr Luis Cunha Ribeiro
1. O contexto é de expectativa na Saúde, ou acha que a eleição do Presidente da República vai ser inconsequente na actual governação da Saúde: ficará tudo na mesma? Em sua opinião o que pode mudar?
A eleição de um novo Presidente da República não vai, na minha opinião, interferir na política de saúde, já que a mesma é da competência constitucional do Governo, devidamente fiscalizado pela Assembleia da República. Neste momento, a uma semana das eleições, a consequência (antecipada) já sentida é uma grande saudade, por alguém que durante 10 anos exerceu o cargo do mais alto Magistrado da Nação com um grande sentido de dignidade e responsabilidade, na senda permanente do interesse de Portugal e dos Portugueses.
2. O médico é também e sempre um cientista, que melhora a sua pratica clínica com a experiência. Concorda com esta afirmação ou as coisas no presente já não são bem assim…
Ser, dever ou poder são coisas diferentes, nem sempre compagináveis. O médico é um cientista? Deve ser um cientista ou pode ser também um cientista?
Do meu ponto de vista é claro e desejável que o médico possa também ser um cientista; em muitos casos o seja de facto, e em muitos outros não o seja “strictus sensus”. Com isto pretende-se dizer que embora o exercício da medicina se enquadre no âmbito de uma epistemologia científica em que a estrutura, o método e a validade do conhecimento obedece a critérios cientificamente reconhecidos e aceites como tal, o médico no âmbito da sua prática diária, não é necessariamente um “fazedor de ciência”.
Já a incorporação da experiência na prática diária, constitui um processo de aprendizagem continua, muitas vezes na base da “tentativa e erro”, que apesar de não se constituir numa metodologia científica e de a validar enquanto tal, preenche um espaço próprio da individualidade, identificada na singularidade que a relação médico/doente constitui.
3. A grande questão que se coloca é, pode o médico nos dias de hoje estar apto a exercer a sua profissão e ser igualmente um gestor profissional ou os caminhos divergem a partir de um certo ponto? Fale-nos um pouco a partir da sua experiência como Médico e Gestor.
Pode, mas não é fácil. A gestão hoje em dia tem exigências próprias e obriga a um conhecimento específico. Nada contudo que impeça um médico de as adquirir.
Mas também aqui a geração espontânea não tem lugar. A área da saúde tem idiossincrasias muito próprias, que levam a que a capacidade de gerir em geral não seja directamente transferível para a gestão da saúde.
Por outro lado ainda, gerir é, também e cada vez mais, a capacidade de antecipar a leitura dos sinais e de inovar. E ler os sinais e inovar numa área tão própria como é a saúde, é tarefa hercúlea para o gestor que da saúde apenas tem a visão do potencial “cliente”.
Uma vez mais, o desfio é o equilíbrio, pouco estável, entre ambas as actividades. Assim sendo, gerir a saúde deveria ser o lugar geométrico da boa prática médica, com a da governação eficiente da “casa”, mais a inovação, sem a qual as espécies desaparecem, porque delas a competição estaria arredada.
4. A emergência médica vai ter um maior ou menor peso no Hospital do Futuro? Como pode um serviço de emergência médico potenciar a eficácia dos hospitais no presente?
Quando se começou a construir hospitais, era preciso proteger a comunidade dos doentes e, numa outra perspectiva, os doentes da comunidade. Por isso foram feitos dentro de quatro paredes.
Hoje, o hospital tem de se abrir à comunidade e ser parte activa dela, tal como a comunidade tem de se abrir ao hospital e dele participar activamente. Amanhã, provavelmente, parte do hospital será a comunidade.
A emergência médica procura e pretende antecipar o devir, pois é já na comunidade que tenta inserir o “hospital”. Um sistema de saúde centrado no cidadão não espera que ele venha ter consigo. Antecipa-se e vai ter com ele sempre que necessário.
É esse o desiderato da emergência médica. E assim ganham os doentes, ganha a comunidade e, “last but not the least”, permite-se à eficácia andar de braço dado com a eficiência.
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Luís Manuel Cunha Ribeiro. É o actual presidente do INEM, tendo desempenhado anteriormente as funções de Director de Serviço de Imunohemoterapia do Hospital de S. João (199) e de Director Clinico do Hospital de S. João (2000). Fez parte de diversas comissões de âmbito ministerial e é consultor de vários organismos do sector da Saúde, tendo sido nomeado em 1999 como coordenador do programa de melhoria da qualidade hospitalar no âmbito do protocolo celebrado entre o Instituto da Qualidade na Saúde e o King’s Fund Health Quality System.
Na vertente académica, o Dr. Cunha Ribeiro é licenciado em Medicina e Cirurgia, com o grau de Chefe de Serviço, e autor de mais de uma centena de comunicações científicas e de vários projectos de investigação científica; organizou e liderou diversos encontros científicos de âmbito nacional e internacional, como membro de diferentes sociedades científicas a que pertence. É igualmente revisor científico de projectos submetidos à NATO - Collaborative Research Grants e Human Frontiers Science Program.
A Saúde está a Prémio em 2005
Os Prémios “Hospital do Futuro”, são uma iniciativa conjunta do Fórum Hospital do Futuro e das organizações apoiantes e patrocinadoras, têm como objectivo destacar e galardoar aquelas pessoas e organizações que mais contribuíram para o desenvolvimento das organizações da Saúde em Portugal.
Podem canditar-se quaisquer pessoas ou entidades ligadas ao sector da saúde em Portugal, que tenham desenvolvido um projecto com relevância para alguma das categorias de prémios deste concurso. Este ano, as categoria abertas a concurso são as seguintes:
- Prémio Integração: melhor iniciativa na área de articulação de cuidados primários,
secundários e continuados.
- Prémio Serviço Público : melhor prestador público de Saúde.
Categoria "Acessibilidade e Atendimento".
Categoria "Inovação”.
- Prémio Serviço Privado : melhor iniciativa do sector Privado de Saúde.
- Prémio Serviço Social: melhor iniciativa do sector Social de Saúde.
- Prémio Parcerias em Saúde:
Categoria Público-Privado: melhor iniciativa de articulação entre o Sector Público e o Sector Privado
Categoria Público-Social: melhor iniciativa de articulação entre o Sector Público e o Sector Social.
- Prémio e-Saúde: melhor iniciativa de e-governo em Saúde.
- Prémio e-Medicina: melhor projecto de telemedicina.
- Prémio Autarquias: melhor contribuição autárquica na Saúde.
- Prémio Educação: melhor iniciativa no ensino da Saúde.
- Prémio Recursos Humanos: melhor iniciativa na área de Recursos Humanos na Saúde do futuro.
- Prémio Farmácia do Futuro: melhor iniciativa de inovação para a Farmácia do futuro.
A escolha das pessoas e entidades premiadas, caberá a um júri constituído por personalidades com reconhecidos méritos nos contextos dos diferentes prémios instituidos e do qual fazem igualmente parte representantes das entidades patrocinadoras. Confirmaram já a sua presença como membros do Juri as seguintes individualidades (por ordem alfabética) Prof. Doutor António Vaz Carneiro (Faculdade de Medicina de Lisboa), Prof. Doutor Constantino Sakellarides (Escola Nacional de Saúde Pública), Dr. Duarte Caldeira (Director Escola Nacional de Bombeiros), Dr. Francisco George (Director Geral Saúde), Engº Frias Gomes (Vogal do Conselho de Administração do IQF), Dr. Gomes Esteves (Presidente da APIFARMA), Prof. Doutor José Dias Coelho (Presidente APDSI), Dr Manuel Delgado (Presidente da APAH - Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares), Dr. Manuel Pedro de Magalhães ( Director do Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa), Dr. Manuel Teixeira (Presidente IGIF), Dr. Pedro Nunes (Bastonário da Ordem dos Médicos), Drª. Rosa Matos (Presidente da ARS do Alentejo), Dr Rui Ivo (Grupo Português de Saúde), Dr. Vasco Maria (Presidente do INFARMED)
O reconhecimento público que será dado aos galardoados “Hospital do Futuro 2005” visa não apenas premiar as iniciativas com mais destaque na Sociedade Portuguesa neste ano, mas igualmente motivar e estabelecer exemplos a seguir no futuro, contribuindo assim para o desenvolvimento do sector da Saúde e para o progresso de Portugal.
Este ano, esta iniciativa conta com o patrocinio e apoio de entidades tão diversas como a Oracle, o Grupo Português de Saúde, a SGS, a Newvision e a SInASE.
A cerimónia de entrega dos prémios decorrerá durante a XIV Conferência SInASE no próximo dia 20 de Março de 2006 e as candidaturas serão recebidas até ao dia 25 de Fevereiro. Para mais informações visite site www.hospitaldofuturo.com
