Medicamentos Inteligentes
Desenvolver medicamentos que saibam dirigir-se às zonas do corpo doentes onde têm de actuar, evitando as zonas saudáveis, é o objectivo de um projecto de investigação do Instituto de Nanociência da Universidade de Saragoça, em Espanha. O progresso das novas tecnologias baseadas na miniaturização extrema pode assim ser aplicado à saúde, para conseguir resultados mais eficazes no tratamento e no diagnóstico de doenças.
O projecto NANOBIOMED pretende “incorporar a nanotecnologia no campo das ciências da saúde, com o objectivo de desenvolver novos fármacos inteligentes e métodos de diagnóstico precoce”, segundo Ricardo Ibarra, director do Instituto de Nanociência. Actualmente, já se utilizam nanopartículas microscópicas como agentes de contraste (nas ressonâncias magnéticas) ou com o fim de detectar proteínas malignas no sangue. Esta investigação pretende ampliar as capacidades destas partículas, permitindo que, quando aplicadas aos medicamentos, estes possam dirigir-se exclusivamente à zona doente, o que vai diminuir os efeitos secundários. Como consequência, será possível aumentar as doses administradas e, portanto, aumentar a eficácia da actuação dos fármacos.
Ao nível do diagnóstico, coloca-se ainda um grande desafio a esta investigação, pois há a hipótese de conseguir encontrar novos métodos que auxiliem na detecção precoce de tumores malignos. Pretende-se descobrir um novo método que permita desenvolver contrastes inteligentes nas ressonâncias magnéticas, ou seja, conseguir que as nanopartículas se concentrem em volta do tumor em desenvolvimento de forma a que este seja mais facilmente detectado nas Ressonâncias Magnéticas.
O projecto tem uma duração de cinco anos e Ricardo Ibarra confia no sucesso da evolução da investigação na área da nanotecnologia, que “tem cada vez mais impacto na nossa sociedade e será uma nova revolução industrial”.
Hospital de Santa Marta: SMS evitam idas ao hospital
O envio de um simples SMS pode evitar uma deslocação à consulta de Cardiologia do Hospital de Santa Marta, que pôs em prática um projecto-piloto pioneiro para melhorar os serviços prestados pelo hospital e a comunicação entre estes e os doentes.
O projecto AIRMED, que concorreu aos Prémios Hospital do Futuro 2005/2006, resulta de uma parceria entre o Hospital e a Fundação Vodafone e tem como objectivo criar uma plataforma tecnológica de comunicações móveis. Na prática, o doente pode agora transmitir o resultado de análises ao hospital através de mensagens escritas de telemóvel (SMS), recebendo como resposta uma mensagem individualizada com o ajuste da sua terapêutica. Este programa aplica-se aos doentes da Consulta de Cardiologia que necessitam de fazer uma terapêutica anticoagulante e por isso precisam de deslocar-se ao hospital pelo menos uma vez por mês para fazer análises e ajustar o tratamento. Com o novo sistema, deixa de ser preciso ir ao hospital, pois as análises podem ser feitas em qualquer outro local e, com a comunicação dos resultados por SMS, os ajustes são indicados por telemóvel.
Além das indicações sobre a terapêutica, o sistema transmite também alertas aos médicos, caso haja necessidade de contactar o doente, bem como alertas aos doentes sempre que estes se esqueçam de enviar os resultados das análises ou estas tenham valores anormais e considerados perigosos.
Os utentes que utilizam este serviço vêem a sua vida facilitada. Para os muitos doentes que necessitam de uma terapêutica para o resto da vida, o sistema de troca de SMS permite poupar uma viagem ao hospital por mês, possibilitando um maior conforto e mais qualidade de vida. O hospital também beneficia, libertando o seu espaço para novos doentes e diminuindo o tempo de espera para consultas.
Para já, este sistema está disponível apenas para a rede Vodafone, mas será alargado às restantes operadoras em breve.
Editorial: A força da realidade…
Há dias na TVE, vi um documentário científico que ilustrava com personagens reais e cenários escrupulosamente caracterizados a evolução e expansão do Homo Sapiens no mundo. Com surpresa, recordaram-me que os nossos ancestrais Sapiens coexistiram com uma espécie irmã e mais robusta, o Homo Neanderthal, com quem chegaram a cooperar na luta pela sobrevivência. Para os Sapiens foi uma feliz sucessão de acasos que nos permitiram fazer enormes descobertas: a agricultura, o fim dos clãs e do nomadismo, a emergência da familia monoparental e das primeiras cidades, também das primeiras epidemias. Tudo isto com o realismo de uma produção televisiva de elevada qualidade.
Dá que pensar. Os problemas que hoje enfrentamos como País, não são muito distintos em magnitude relativa daqueles que os nossos ancestrais enfrentavam na pré-história. Ontem como hoje, as mesmas fraquezas nos acompanham, assim como os mesmos rasgos de audácia e de coragem, no desbravar de novos caminhos: continuamos a procurar sobreviver enquanto civilização humana. Hoje em dia, com o suporte tecnológico do pós-renascimento, do pós-revolução industrial, e até do pós-revolução digital, continuamos a cometer erros de decisão, que traduzem avanços e recuos em termos de gestão da coisa pública. São hospitais que um governo inagura, para outro ter que encerrar. São médicos e enfermeiros cuja formação o Estado limita, para logo se descobrir que estão em falta. Apesar de um enorme capital de conhecimento acumulado, é lenta a aprendizagem colectiva que ocorre em Portugal. Urge reconhecer que certas decisões de Estado pela sua repercusão no longo prazo, não podem ser tomadas por governos com um máximo de 48 meses de duração. É muito pouco tempo. Por isso, a governação do Estado passa sempre uma elevada factura ao País (vide o estado das contas públicas, a progressão dos incêndios, a sinistralidade vial, o insucesso escolar, etc.). Talvez seja o actual modelo de governação do Estado que contribui para o desgaste da imagem da política e dos políticos, e justamente num momento em que a liderança colectiva é cada vez mais necessária. Em Portugal e na União Europeia.
Desde o tempo das primeiras civilizações, a criação de leis constituintes traduz uma espécie de pedra angular, a partir da qual emerge o conceito de Estado que veio possibilitar um mais que extraordinário avanço da humanidade. O Estado português não foge à regra e no sector da Saúde, a nossa lei constituinte tem uma nobre história recente: a criação de um Serviço Nacional de Saúde (SNS) gratuito para todos. Apostando na solvência da economia portuguesa, os nossos constituintes tiveram esse sonho. Mas produzir algo que custa muito dinheiro, como é o caso da Saúde, e disponibilizá-lo gratuitamente para todos é uma tarefa socialmente injusta, inlcusive para os profissionais de saúde do Estado. Estes dificilmente serão apreciados pelo valor daquilo que fazem (produzem um bem grátis) mas sempre criticados pelo que fica por fazer.
Na realidade, as circunstâncias têm vindo a alterar dramaticamente este sonho colectivo. Despertámos. A gratuidade no acesso à Saúde é uma ilusão, um bem inalcançável. Foi então que surgiu uma inovadora alteração do texto constitucional. A Saúde é hoje entendida como "tendencialmente gratuita", um engenhoso objectivo que consegue pôr de acordo a metade de um País e a outra. A metade que ainda acredita que a tendência vai no sentido da gratuidade e a outra metade que defende a tendência oposta (serviços pagos), como única forma de salvar o sistema e garantir a sua sustentabilidade.
É certo que a melhoria da eficiência da gestão do SNS pode trazer importantes poupanças sem prejudicar os ganhos em Saúde para os portugueses. É isso o que se espera que um bom governo possa alcançar. Mas a sustentabilidade do SNS no médio e longo prazo passa por um conjunto de medidas estruturais que entram no âmbito constitucional do próprio Estado. Qual deve ser a principal função do Estado na criação de saúde para os cidadãos: Curar ou prevenir a doença? A quem compete a investigação & desenvolvimento em saúde (ver artigo abaixo)? A quem compete criar estabelecimentos de saúde? Deverá o sector público competir com as ofertas do sector privado (ver outro artigo abaixo)? Não teremos todos direito a usufruir de hospitais de luxo? E quem paga a factura daqueles que não podem pagar? A bem da constituição da União Europeia, o debate para a definição do papel do Estado no sector da Saúde, terá que ser igualmente feito em Portugal.
PNA

